O Dark Enlightenment para iniciantes

Artigo original aqui.

Logo após de Nick Land cunhar a frase “Dark Enlightenment” houve uma enxurrada de artigos sobre o assunto. Contudo, a maioria dos artigos que tentavam realmente explicar o que é foi escrita por aqueles que eram hostis ao conceito. Agora que o furor abaixou parece uma boa hora para tentar explicar aos recém-chegados o que o Dark Enlightenment realmente é, de um ponto de vista simpático. Com tantos escritores diferentes pode ser intimidante ao recém-chegado molhar os pés na água sem ter que pular no oceano. Portanto, esta será uma cartilha para aqueles que estão curiosos e procurando por uma introdução.

Na série Dark Enlightenment de Nick Land, ele nunca realmente o define, por isso estou indo pela definição de Jim: que o Iluminismo estava perigosamente otimista sobre humanos, sobre a natureza humana e o estado, que é uma outra religião, nos dizendo o que queremos ouvir, mas sobre esse mundo invés do próximo.

http://blog.jim.com/culture/the-dark-enlightenment/

Alegar que o Iluminismo era otimista sobre a natureza humana não é nada novo. Na verdade, grande parte do Iluminismo foi dedicada a isso. Basta pensar no ceticismo de Locke sobre ideias inatas, a negação de Hume do conhecimento do ser ou a negação de Kant do conhecimento das coisas em si mesmas. Esse ceticismo sobre o conhecimento foi levado à sua conclusão no século XX com a negação de Sellers de que possuímos consciência direta de nossos estados perpétuos, e alcançou seu ápice no ataque de Millikan ao “racionalismo significativo”, onde até o significado de nossos próprios pensamentos e linguagem não são dados diretamente à consciência.

Então, contra qual visão iluminista da natureza humana o Dark Enlightenment se define? Aqui parece haver um consenso muito forte de que a visão da natureza humana que sustenta a tábula rasa não é só errada, mas também desastrosa (“Tábula Rasa”, de Steven Pinker, é recomendado para qualquer um que queira investigar essas águas). A tábula rasa foi originalmente uma noção inteiramente epistemológica; era a alegação de que o conhecimento vem dos sentidos e que não há ideias inatas no sentido cartesiano. Restringida a essa esfera é relativamente sem problemas e é uma visão que compartilho. Mas no final do século XIX e XX a noção de tábula rasa foi estendida muito além da sua origem meramente epistemológica para abranger a totalidade da psicologia humana. É a essa expansão que o Dark Enlightenment se posiciona contra.

É esclarecedor entender como o comunismo afirmou ser a conclusão racional da tábula rasa. O comunismo considerou que a natureza humana é inteiramente maleável e que a educação e propaganda podem moldar o povo em qualquer maneira desejada. Comunistas consideravam que as pessoas eram tão maleáveis que, digamos, a afeição dos pais pelas crianças poderia ser dada à distância e que as crianças poderiam alegremente serem abandonas e serem compradas pelo estado, ou que o auto interesse do povo poderia ser superado pela educação, e assim as pessoas poderiam trabalhar não em seu benefício, mas em benefício do estado, ou que as pessoas poderiam ser educadas fora de seu desejo de bens materiais, e assim por diante. A visão comunista era até um tanto razoável dado o igualitarismo de tábula rasa. Por exemplo, me recordo de ler em algum lugar que Trotsky afirmou que haveria um Leonardo Da Vinci em cada esquina depois da revolução, e porque não? Se todo mundo é igual então inequidade deve ser o resultado de condições sociais. Se todo mundo poderia ser um Leonardo Da Vinci, porque não podemos todos sermos um Leonardo da Vinci se somos todos iguais e a sociedade é aperfeiçoada?

A lição oficial socialmente aprovada da queda do comunismo é de que ele caiu porque falou que as pessoas são naturalmente auto interessadas. Até mesmo o super-esquerdista Peter Singer em seu livro Darwinian Left admite que um sistema político não pode requerer que o povo aja contra seu próprio interesse. Essa é a visão reinante do neoliberalismo: tábula rasa + auto interesse. Neoliberais de direita e esquerda acreditam na tábula rasa exceto em áreas que as pessoas são naturalmente auto interessadas.

O Dark Enlightenment retorna com muito mais além do auto interesse. A razão para isso é que o DE enxerga a psicologia como um ramo da biologia. Não argumentarei a favor desse ponto aqui, exceto pela alegação de que se as mentes são resultados de nossos cérebros funcionais, e cérebros são órgãos biológicos, eles devem funcionar pelos mesmos princípios do resto da biologia. Isso, de fato, pode funcionar como uma definição do Dark Enlightenment: a biologia se aplica às pessoas também. O que pode ser reformulado como: perceba que você é um ser projetado. Por exemplo, uma coisa que precisamos retornar à visão de natureza humana é a psicologia biofuncional, a visão de que estados mentais devem ser entendidos da mesma maneira que qualquer processo biológico é entendido. Considere o sentimento de fome. Que efeito a fome produz que pode explicar como ela contribui para o bem-estar de um organismo? Parece claro que a fome deveria, é projetada para, fazer o indivíduo procurar por comida. Essa é a função da fome tanto quanto do coração em bombear sangue, ou glóbulos vermelhos carregarem oxigênio pelo corpo. A mesma abordagem pode se referir aos outros sentimentos como sede, medo, raiva e outros estados mentais como crenças, esperanças, intenções e desejos.

Um maior carinho dos pais para com suas crianças invés de crianças sem parentesco é outra coisa que colocamos na natureza humana. Geralmente usamos a teoria de seleção de parentesco para explicar isso. Para reiterar, o comunismo costumava a pensar (e os kibbutz israelenses também) que as crianças poderiam ser criadas em comunidade, sem apego aos seus pais, e que pais poderiam felizmente entregar seus filhos para serem criados pelo estado, e que essa criança poderia vir a se importar mais com o estado do que com suas famílias. Mas onde isso é tentado, os pais vêm a rejeitar e desejar cuidar do bem-estar de seus filhos pessoalmente. O Dark Enlightenment enxerga o amor dos pais e parcialmente pelos seus filhos como parte da natureza humana.

Outra coisa que retornamos é a atração sexual. Pode surpreender algumas pessoas hoje o conhecimento de que não muito tempo atrás se acreditava que atração sexual e identidade eram meramente uma questão de condicionamento social. Pensou que, se um menino fosse criado como garota desde o parto, ele poderia se identificar como menina e ser atraído por garoros, e exibir traços femininos. Aqui há um documentário que trata disso: https://www.youtube.com/watch?v=G0J9KZVB9FM

Essa visão foi provada inteiramente infundada, mas você pode ver como ela resulta do dogma extremo da tábula rasa. Mas se a psicologia é entendida biologicamente faz sentido que a atração sexual seja construída em humanos tal como em outros animais.

Outra coisa que retornamos à visão de natureza humana é a diversidade. No mundo biológico, do comprimento dos dedos do pé, até onde você pode correr, o número de cabelo do pé, e assim adiante, tudo isso é distribuído ao longo de série de valores. Isso deveria se aplicar a estados psicológicos também. Algumas pessoas podem ser naturalmente furiosas, detendo fortes sentimentos de raiva, as crianças muito inteligentes da sua escola provavelmente eram realmente mais inteligentes que as crianças mais lentas, algumas pessoas podem ter um talento natural para música, e assim por diante.

Então, o que é “sombrio” no Dark Enlightenment? Absolutamente nada. O Dark Enlightenment apenas parece sombrio em contraste com o otimismo cego do igualitarismo de tábula rasa. As coisas que o DE defende sobre a natureza humana – que pais naturalmente favorecem seus filhos, que atração sexual é um fenômeno biológico, que algumas pessoas são naturalmente inteligentes ou mais rápidas que outras – são coisas que foram aceitas por todos como senso comum por boa parte de toda história humana. O Dark Enlightenment pode ser melhor denominado de O Retorno à Normalidade. Então a frase “Dark Enlightenment” pode não ser a melhor, mas tem recebido atenção suficiente de modo que não penso que devemos abandoná-la.

Cada aspecto da natureza humana que tenho discutido aqui tem sua própria ramificação na árvore do Dark Enlightenment (e seus próprios sites dedicados a sua discussão). Tendo aceitado a definição de Jim no início do post, desejo agora rejeitá-la como muito limitante. O Dark Enlightenment se estende para muito além da questão de psicologia humana abordada aqui. Por exemplo, não discuti política ou religião (ou Gnon). Em suma, o centro de nossas discussões políticas sobre quais estruturas políticas e sociais são necessárias para criar uma civilização estável, pacífica, próspera e duradoura para tal criatura. Em outra parte, argumentei que o  Dark Enlightenment deve ser identificado com um renascimento da relevância da teleologia. Essas são todas áreas férteis para exploração para quaisquer pessoas interessadas nesses temas.

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